poemas digitais

“Interessa-me dessacralizar aquilo que foi estabelecido enquanto instituição, como a poesia impressa em livro, para tornar o poema tão livre quanto o foi nos períodos em que era raramente escrito. Uma poesia corporal, ainda que escrita em bites.”

O poeta Márcio-André explica sua proposta de poesia digital.

Hoje, a Folha Ilustrada se transformou num sarau. Uma das vertentes abordadas é o verso que extrapola para “fora da página”. Nesses casos, a rima combina com outras disciplinas, criando uma experiência multimídia e, em muitos casos, colaborativa: os caminhos líricos ganham forma de poema-instalação, poesia cíbrida, matemática, dentre outros.

Falar em alta e baixa cultura ainda faz sentido?

“O pendor para questionar limites entre alta e baixa cultura – que já não fazem nenhum sentido (se é que já fizeram) – é antigo”, explica o escritor Joca Reiners Terron. Infelizmente, essa dicotomia equivocada ainda persiste.

Confunde-se muitas vezes o estilo da obra (livro, filme, HQ etc.) com a qualidade do produto. Livros, não raro, são visto como alta cultura. Depois, viriam outras manifestações artísticas. Num mundo em que se fala de narrativa transmídia, soa anacrônico pensar assim.

Em 1997, a Dreamworks lançou o desenho animado O Príncipe do Egito. Questionado porque a empresa estava lançando uma obra com temática religiosa, o produtor Jeffrey Katzenberg explicou que animação não é um gênero, mas sim um estilo narrativo. Por isso, pode-se contar qualquer tipo de história. Se achássemos que desenho animado é coisa de criança, não chegaríamos a lançar obras como Wall-e, Valsa com Bashir etc.

O mesmo ocorre com as HQs. Há tempos os temas se expandiram, não versam apenas sobre “heróis”. E mesmo esses estão inseridos, muitas vezes, em tramas adultas. De toda forma, a linguagem das HQs é usada para reportagens, contar histórias densas… Maus, em que Art Spiegelman narra a história de seu pai durante a segunda guerra mundial, é um exemplo. Levou o prestigiado prêmio Pulitzer. Já Wathcmen foi escolhida pela revista Time como uma das 100 melhores obras literárias em língua inglesa desde 1923.

Hoje, mais do que nunca, as narrativas dialogam. As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, livro do escritor norte-americano Michael Chabon sobre dois amigos que criam um herói para combater nazistas levou, em 2001, o prêmio Pulitzer de ficção. No ano seguinte, o autor colaborou no roteiro de Homem Aranha 2.

De uns tempos para cá, é possível manter gostos, hábitos muitas vezes ligados à adolescência e à infância. Antigamente, isso seria visto como sinal de imaturidade. O estilo de se vestir, o que escutar, isso tudo variava de acordo com a faixa etária.

Jogos eletrônicos, por exemplo, tinham de ficar no passado. O mesmo valia para a música. Já vi muitos artistas afirmando que rock seria um gênero jovem. Bobagem. Assim como os títulos que jogávamos em nossos videogames evoluíram, o mesmo pode acontecer com outras formas de entretenimento.

No final das contas, a verdadeira distinção é entre boa e má narrativa.

São as palavras que suportam o mundo: a poesia de Fabrício Carpinejar e Paulo Henriques Britto

Há uma boa safra de “novos” poetas que descobri recentemente. Um dos mais interessantes é Fabrício Carpinejar, cujo blog é visita obrigatória.

Outro nome de destaque é Paulo Henriques Britto. Com seu livro “MACAU”, ele ganhou o prêmio Portugal Telecom de Literatura. Levou R$ 100 mil e um prêmio mais módico: minha admiração.

No poema “Acalanto”, ele sintetiza, como poucos, o prazer de estar com alguém: “Noite após noite, exaustos, lado a lado, / digerindo o dia, além das palavras / e aquém do sono, nos simplificamos.”

Mas a grande mensagem é o poema “De Vulgari eloquentia”. Para quem gosta de escrever e/ou conversar, ele representa todo o sentimento contida nessas ações. E, como mensagem para o próximo ano, eu deixo esse texto “para salvar o universo”.

De Vulgari eloquentia
A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o “porquê”, o “sim”,

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.

Eros uma vez (literatura erótica)

Muitos autores já malograram na tentativa de versar sobre sexo. Todo ano, aliás, é escolhida a pior cena de sexo publicada num livro (Bad Sex Awards). E autores renomados já levaram o “prêmio”.

Grandes sucessos não ficaram imunes às críticas. “Onze Minutos”, de Paulo Coelho, foi bastante contestado. “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, é outro exemplo.

Até os grandes nomes tem dificuldade de lidar com o tema. Receoso, Drummond só permitiu que seus poemas lascivos fossem publicados após sua morte (livro “Amor Natural”).

De toda forma, há escritores que são bastante identificados com essa temática, abordando-a de forma mais direta: Anais Nin, Henry Miller, Raduan Nassar (em especial “Copo de Cólera”), Vladimir Nabocov etc. Outros optam por uma verve mais cômica, como Hilda Hilst (“Bufólicas”) e Luís Fernando Veríssimo (“Sexo na Cabeça”). Marquês de Sade conseguiu a proeza de transitar pelas duas frentes.

Poucas mulheres citadas? Fernanda Young certa vez comentou que os homens obtêm os melhores resultados quando falam de sexo. Segundo ela, as mulheres idealizam demais o ato, e acabam esquecendo sua conotação “animalesca”. Como exemplo há Nélida Piñon, que em “A Casa da Paixão” traz uma mulher transando com o sol.

Piñon parece ter mudado em seu livro “Vozes do deserto”. Em entrevista ao jornal O Globo, ela afirmou que Neste livro fui mais direta, porque não podia ser de outro jeito. Nunca uso “fazer amor”. Tudo é sexo. É cópula, fornicação, o coito, o falo, a vulva. Não foi minha intenção ser pornográfica, chocar, mas eu não poderia me esquivar de descrever estas cenas.

Em “O Trágico e Outras Comédias”, Veronica Stigger opta por um caminho até mais “direto”. No conto “A Chuva”, ela escreve: “Imagina se um dia começasse a chover caralhos. Um monte de caralhos de todos os tamanhos e formas caindo do céu. Uns maiores, outros menores. Uns fininhos, outros bem grossos, parecendo toras. Caralhos grandes. Caralhos volumosos. Caralhos roxinhos. Caralhos pequenos, mas engraçadinhos, daqueles que dá vontade de chupar feito pirulito“.

Como diz Godard: “Tudo o que se mexe é pornográfico“.

Dica
No final do ano passado foi lançado o livro “100 Melhores Histórias Eróticas da Literatura Universal“, de Flávio Moreira da Costa.

Frase [O que é crônica]

“A discussão sobre aquilo que distingue o conto da crônica vale um tratado. Mas é possível dizer, de modo esquemático, que o conto descreve e qualifica uma ação, determinando seu princípio, seu fim, sua causa única, sua consequência irreversível. A crônica, ao contrário, é um instantâneo de realidade, um recorte de tempo que se confunde com outras situações similares. O conto se apropria da mecânica dos acontecimentos para transtornar nossa visão da realidade: daí o recurso frequente a enredos paradoxais que revelam, por meio de uma lógica rigorosa, a desrazão do mundo. Já a crônica nos diz que até os acontecimentos mais estranhos são exemplares de uma existência homogênea, familiar.” (MANUEL DA COSTA PINTO)

Guerrilha das letras [Bookcrossing.com]

Já ouviu falar sobre atentado poético? A página Bookcrossing.com tem por objetivo criar uma enorme biblioteca global e informal. Qualquer pessoa pode se cadastrar no site, no qual são registrados os livros soltos pelas ruas.

Cada título liberado leva um selo e quem o encontra é convidado a registrá-lo novamente no site, a fim de que se conheça sua trajetória, e depois a liberá-lo novamente, para que o volume não fique mofando na estante.

Escritores & lugares

Literary Traveler” é uma revista eletrônica que destaca escritores e os lugares por onde eles viajaram (que são relevantes em suas obras) e suas residências.

Edgar Allan Poe, Jack Kerouac, John Steinbeck, Ernest Hemingway e mesmos nomes recentes, como Michael Crichton, já foram analisados.