espaço e tempo

[…]Centenas de estudos catalogaram muitas circunstâncias que podem afetar como as memórias são registradas, incluindo a emoção na época do fato, as pressões sociais que influem em sua reconstrução e até floreios acrescentados inconscientemente.
Enquanto a maioria das pessoas tende a pensar que a memória funciona como um gravador de vídeo, na verdade ela é mais como um show de slides granulado.
[…] Pesquisadores acreditam que o objetivo da memória não é apenas registrar o que aconteceu, mas oferecer um roteiro de algo possível. Como o cérebro usa memórias para “ensaios gerais” da mente, não somos programados para reter todas as facetas de um fato, dizem os cientistas. Um esquema geral é suficiente para nos impedir de nos perdermos, ou para encontrarmos comida ou sabermos o que fazer em uma tempestade.

Do NY Times.

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A cronologia […] não segue uma linha reta, mas é feita de sobressaltos. A memória é um espelho opaco e estilhaçado, ou melhor, é feita de conchas intemporais de lembranças espalhadas numa praia de esquecimento. Sei que aconteceram muitas coisas naqueles anos, mas tentar recordá-las é tão desesperador como tentar lembrar um sonho, um sonho que deixou em nós uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual resta apenas um vago estado de espírito. As imagens se perderam. Os anos, as palavras, as brincadeiras, as carícias se apagaram, e no entanto, de repente, rememorando o passado, alguma coisa volta a se iluminar na sombria região do esquecimento”

– A Ausência que Seremos, Hector Abad